Aula 4

Composição

O mais importante ao se conhecer certas regras na hora de compor uma cena é ter em mente que nenhuma delas é absoluta e não pode ser quebrada. Afinal, o que valoriza uma imagem é a criatividade com a qual os elementos nela foram exibidos e combinados. Por isso mesmo, nunca haverá uma “receita” pronta para as mais diversas situações. Mas alguns “conselhos” devem ser sempre observados e, se dispensados, deve ser de forma claramente proposital e consciente para dar sentido ao que se objetiva criar numa foto.

Planos

É preciso estar atento ao fato que a fotografia registra imagens tridimensionais em meios bidimensionais. Ou seja, há uma fusão visual e sensorial de planos se não se tomar alguns cuidados. Também, sendo a fotografia um registro estático de um instante que é dinâmico podemos utilizar do bom arranjo dos planos como um dos elementos que ajudam a aplicar um dinamismo ao registro.

O Primeiro Plano

O primeiro plano pode funcionar como uma espécie de condutor de uma cena. Por isso devemos lembrar que nem sempre deve-se dar um destaque demasiado ao primeiro plano, a não ser que nada mais nos outros planos seja tão ou mais importante. Desta forma, também o primeiro plano deverá ser o assunto predominante na área registrada. É o caso de retratos, por exemplo.

 

Retrato
Retrato

 Mas sempre se deve ter em mente que uma fotografia pode contar uma história, e a ordem com que os planos se apresentam podem criar uma “linha do tempo” para a compreensão da imagem estática.

Primeiro plano em destaque como elemento da ação, conduzindo a um segundo plano em segundo tempo para a compreensão da ação.
Primeiro plano em destaque como elemento da ação, conduzindo a um segundo plano em segundo tempo para a compreensão da ação.

 

Mas muitas vezes o primeiro plano, longe de ter um elemento de destaque, é apenas algo que inicia a observação e indica, através de objetos, ações ou linhas imaginárias a direção que o olhar do expectador deve seguir. Nestes casos, não há necessidade de que este plano esteja plenamente nítido e focado. Muitas vezes a falta de nitidez valoriza o plano principal.

Linhas imaginárias partem do primeiro plano conduzindo ao que realmente é importante nas imagens.
Linhas imaginárias partem do primeiro plano conduzindo ao que realmente é importante nas imagens.

 

O mesmo pode ser conseguido através de ações no primeiro plano que levam ao plano principal, valorizado pela iluminação (fortaleza) e/ou pela nitidez (noiva).
O mesmo pode ser conseguido através de ações no primeiro plano que levam ao plano principal, valorizado pela iluminação (fortaleza) e/ou pela nitidez (noiva).

 

Moldura

Também com a intenção de valorizar e situar o assunto principal, além de ser um recurso plástico, é utilizar-se de elementos que emoldurem a imagem no primeiro plano. Neste caso também não há necessidade de grande nitidez destes, e muitas vezes nem é desejado.

 

Primeiro plano como moldura. Note, na segunda foto como a moldura também serve para preencher um espaço desinteressante (no caso, o céu).
Primeiro plano como moldura. Note, na segunda foto como a moldura também serve para preencher um espaço desinteressante (no caso, o céu).

 

O Fundo

Normalmente esquecido pelo iniciante, o fundo é de vital importância para a compreensão, para a beleza plástica de uma imagem e para se situar o elemento principal dela. Por isso, há que se cuidar para que este não seja conflitante em suas cores, tons e luminosidade e tão pouco que seja conflitante por sua complexidade. É importante saber escolher o melhor posicionamento e os melhores recursos técnicos para isolar o que é importante diante do que está ao fundo. Veja os principais enganos e soluções possíveis:

 

A asa-delta, objeto principal em primeiro plano, ficou sem destaque por causa de um fundo conflitante (a praia). Entre as soluções possiveis haveria a possibilidade de desfocar o fundo com uma grande abertura ou simplesmente esperar que a asa estivesse sobre um plano mais claro e menos confuso, como o mar ou o céu.
A asa-delta, objeto principal em primeiro plano, ficou sem destaque por causa de um fundo conflitante (a praia). Entre as soluções possíveis haveria a possibilidade de desfocar o fundo com uma grande abertura ou simplesmente esperar que a asa estivesse sobre um plano mais claro e menos confuso, como o mar ou o céu.
Quando a intenção era registrar o pier deitado sobre a lâmina d’água, não se atentou para o fundo com a mesma luminosidade e tons parecidos, o resultado é uma imagem confusa.
Quando a intenção era registrar o pier deitado sobre a lâmina d’água, não se atentou para o fundo com a mesma luminosidade e tons parecidos, o resultado é uma imagem confusa.
 
Há também casos em que o fundo é mais claro ou luminoso que o assunto principal, desviando a atenção do que realmente é importante. Seria melhor reenquadrar a cena de modo a não ter tal contraste. Ou ainda, fotografar com a ajuda de um flash.
Há também casos em que o fundo é mais claro ou luminoso que o assunto principal, desviando a atenção do que realmente é importante. Seria melhor reenquadrar a cena de modo a não ter tal contraste. Ou ainda, fotografar com a ajuda de um flash.

 

A Regra dos Terços

A forma como os elementos estão dispostos numa cena pode significar o sucesso ou fracasso na intenção de um registro. Elementos em diversos planos, adequadamente ajustados podem conduzir a uma leitura da foto com uma seqüência lógica na visualização dos elementos.
Uma imagem com elementos centralizados, como muitos iniciantes pensam ser o correto, é uma cena extremamente estática, sem dinamismo algum. O assunto principal no centro da imagem costuma dispensar o observador de contemplar todo o resto, fixando a atenção naquele único assunto. Evite.

 Exemplo
centralizado

A Regra dos Terços consiste numa técnica para começarmos a praticar a organização dos elementos na cena. Obviamente não é uma regra severa e serve apenas como orientação para uma prática que em pouco tempo se torna intuitiva.
Ao compor a cena, devemos tentar dividir mentalmente a imagem que vemos pelo visor em nove partes iguais com duas linhas verticais paralelas e duas linhas horizontais paralelas. Suas intersecções são chamadas de “Pontos de Ouro”. A idéia é que os elementos fiquem posicionados de forma mais aproximada possível destes “Pontos de Ouro.”, distribuindo-os por terças partes da imagem.

Veja o exemplo abaixo:
A figura humana ocupa o terço direito da imagem, próxima aos pontos de intersecção. A linha do horizonte também está dividindo a imagem em 1 para 2 terços, ou seja: nada centralizado.

regra-dos-tercos 

 

Em movimento

Deixar uma área a frente daquilo que está se movimentando é uma forma de dar dinamismo a cena e promover a imaginação de sua continuidade. Para tal também pode-se utilizar da Regra dos Terços.

 regra-dos-tercos-movimento

 

A composição contando histórias

Veja como a posição dos elementos pode indicar uma ação continua: Terá a distinta senhora roubado um “bem-casado” antes da hora e saído furtivamente?

historia

 

 

Horizontes

Não centralizar horizontes também é uma forma de tornar a imagem mais interessante. Valorizando-se o céu, ou o assunto no solo é possível dar dimensões a paisagem, assim como criar linhas de perspectiva que conduzem o olhar.

 horizonte-abaixo1
horizonte-acima1

 

Encontrando desenhos

Para mim, o momento mais divertido e estimulante de fotografar, depois de brincar com a luz, é, junto com ela, encontrar a geometria da cena e então procurar montar com um conjunto de formas, uma harmonia. Assim como num jogo. Estas formas invisíveis ao expectador, estarão transmitindo ao seu inconsciente sensações das mais diversas através das linhas e blocos criados.

É um exercício subjetivo e que estimula a criatividade.

desenhos-01

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desenhos-03

desenhos-04

desenhos-05

 

Figura humana

Colocar um elemento humano na composição sempre valoriza a imagem, além de funcionar como forma de dar referência às dimensões do ambiente.

 fighumana01

fighumana02

Existem pontos que podem ajudar a tornar a composição intuitiva ao passar do tempo, mas para que isso seja positivo e garanta bons resultados, é imprescindível que alguns hábitos sejam adquiridos:

• Estar sempre atualizando seu “portifólio visual”, observando o trabalho de outros fotógrafos, artistas plásticos, tomadas de cinema e ter o maior contato possível com as artes visuais sempre.

• Procure descondicionar o olhar, tentando enxergar novas formas e imagens diferentes das óbvias na mesma cena, observando sombras, texturas e cores para montar uma imagem mentalmente antes de clicar.

• Procure variar e inovar os ângulos e posicionamentos diferentes.

• Tente encontrar beleza nas coisas banais, procure o que normalmente passa desapercebido e explore muito cada assunto antes de abandoná-lo. Fotos muito interessantes foram obtidas onde a primeira vista não havia nada, nos locais mais inusitados e muitas vezes embaixo do nosso nariz.

Óculos de natação (bem) usado pendurado na torneira do tanque aberta, em minha casa, diante da luz da janela com paisagem ensolarada desfocada ao fundo. • f 5 • Velocidade 1/3200 s • Iso 400 • Dist. Focal 195 mm
Óculos de natação (bem) usado pendurado na torneira do tanque aberta, em minha casa, diante da luz da janela com paisagem ensolarada desfocada ao fundo. • f 5 • Velocidade 1/3200 s • Iso 400 • Dist. Focal 195 mm

Publicado por

Marcelo dos Santos

Diretor de Arte e Fotógrafo

15 comentários em “Aula 4”

  1. Oi, estava lendo a aula hoje e logo lembrei do programa sobre fotografia do Senac, que passou hoje na televisão, sobre um fotográfo de Santos, que faz fotografia de patrimônio histórico, e que desenha a fotografia à mão, antes de fotografar. Ele também sai percorrendo as ruas procurando o que realmente fotografar, sabe? Se ele vê um prédio mais velho, ele praticamente o fotografa com os olhos, faz os desenhos, assinala a melhor câmera e objetiva a ser usada. Impressionante! E como o comportamento artistico dele é importante, sabe? Olhar antes de fotografar. Ele contou que estuda qual a melhor hora de incidência da luz para fotografar, enfim, o motivo selecionado anteriormente. Interessantíssimo. Eu pensei, então, nos grandes mestres da pintura, em seus esboços, em seus rabiscos…
    O problema todo é que parece que a gente é mesmo movido a imediatismo e nunca se dá conta que fotografia é uma arte, cheia de meandros, se posso usar essa palavra.
    Devia ser como na Yoga: primeiro aprender a respirar, depois estudar a respiração com os exercícios. Depois se exercitar…
    E tem um detalhe importatíssimo na tua aula, sabe? A gente costuma olhar o grande, como se, ao fazer o grande estivessemos sendo grandes fotografos, e, de repente, um mínimo detalhe faz uma fotografia ser grandiosa…
    Parabéns pela excelente aula.
    Agora vou ler tudo de novo….

    1. Sim, a fotografia pode ser muitas coisas. Pode ser sorte, criação, construção (como o caso que você citou) e observação. Tudo isso junto, separado ou combinado. Mas uma coisa pelo menos estará presente em toda boa foto: O suor!
      Nunca é fruto de um mero instante iluminado.

      abçs

  2. E outro comentário. O que você costuma fazer após fotografar, brincando com formas geométricas, é o que eu faço como artista plastica, sem nem mesmo pensar em fotografar. Eu desenho tribais e as vezes eu fico pensando em como dar o pulo dos tribais para a fotografia onde se possa ler um desenho tribal… Nem sei fazer isso…
    Um abraço.

  3. Moro aqui no Acre, imaginem vcs o quanto de imagens exoticas temos para combinar com esses conhecimentos. Venha nos visitar.

  4. Ola Marcelo.
    Tinha algumas duvidas quanto a regra dos terços,,no qual vc sanou legal,conheço bem a regra mais pelo afobamento sempre acabado errando,mais foi boa sua explicação,apesar,,que admiro vcs que aprende e passa para quem esta aprendendo e começando a fotografar,ta de parabens meu caro.
    Abraços

  5. Ola Marcelo ,,tenho observado vários fotógrafos que antes de fazer a foto ,eles focam pra cima e depois retornam ao assunto e disparam ,mas não sei o motivo,é pra algum tipo de ajuste ?? sou amador mas gostaria de saber …obrigado.

      1. Opa Marcelo….isso acho que pode ser a fotometria sim ,ontem andei olhando uns videos e falavam isso ,,,você foca na parte mais clara ( céu ) e depois diminui 1 ponto de luz no assunto ( uma pessoa ) a ser fotografado,…no meu caso o fotografo estava fazendo isso em um auditório por isso minha pergunta…..se é que minha explicação tem sentido……

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