Esquecidinhas do HD

“Seguir os passos de alguém, só vai te levar a um lugar que já está ocupado.” Achei que essa frase fosse minha. Disse ela, acho que no meu perfil do twitter no ano passado, e acredito nunca tê-la ouvido antes. Alguém tempos depois me disse que antes de mim o Isaac Newton já havia dito algo semelhante. Pesquisei e não achei. Mas, se já foi dita, coincidência. Quando alguém me confirmar, eu dou o crédito pro autor pioneiro aqui. O que aliás, seria uma bela ilustração para a mesma.

O verdadeiro mestre é aquele que abre a porta, não o que mostra o caminho. Foi justamente assistindo a uma aula técnica, sobre um segmento específico da fotografia que fiquei pensando sobre quantas pessoas saíam de seus cursos e oficinas reproduzindo à exaustão o que aprenderam e esquecem de experimentar por conta própria.

A repetição é fundamental para o estudo e aprimoramento técnico. Aprendemos a escrever com a “Tia Margarida” e usamos por muito tempo aquela grafia de bordado, a pedagógica, mas aos poucos vamos abrindo mão da caderneta e desenvolvendo nossa pegada, a caligrafia que vai nos acompanhar por toda a vida. É a forma de expressão de todo mundo. Do artista plástico ao gerente do banco. Há que se buscar incansavelmente o mesmo com a fotografia. E isto é muito mais complicado do que pode parecer, pois não basta ter sua pegada, não basta ter uma forma distinta de usar as cores, a luz e a organização dos elementos. Pois muitas vezes isso ainda é repetição da referência. É preciso “se ver” no conjunto, se encontrar nas suas fotografias.

Há algum momento no processo em que precisamos esquecer um pouco a fotografia dos outros. Sim, a referência deve ser absorvida lentamente e em grande número e variedade. Principalmente variedade. Mas a observação deve incluir tudo o que é visual, tudo o que é estético, social e antropológico pois ficar mergulhado no caminho fotográfico que já foi traçado ou está se traçando pode ser mero exercício de redundância. Conhecer sim, ser absorvido por ele, não. Deve se encontrar a “fotografia”da literatura, da música e de tudo o que se produz, e não somente nela mesma. Há que se levantar a cabeça e olhar em volta, há que se olhar para tudo o que já fizemos e entender aonde tentamos chegar.

Minha dica, que pode ser furada, mas que está me ajudando a beça: revisite-se. Reveja com freqüência o que você já fez, vá buscar as coisas que deixou fechadas, mesmo o que está contido naquelas pastas de dias menos inspirados, aqueles em que a luz estava uma bosta, aqueles em que você simplesmente descarregou o cartão e esqueceu lá fotos sem relevância. Aquelas esquecidas nos seus HDs. Essa matéria bruta pode ser fundamental para o auto conhecimento. Deixamos lá nossas mensagens, nossos códigos, nossos segredos fechados e guardados para reutilizá-los um dia. E ali, nesse lugar, pode estar a chave para a nossa assinatura, a liberdade para a nossa caligrafia e o caminho para o lugar desocupado que nos espera, para fincar bandeira, para tomarmos a posse e sermos donos, únicos, daquele pedaço.

Publicado por

Marcelo dos Santos

Diretor de Arte e Fotógrafo

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