Pedro Martinelli

Porta-retratos

1º de Maio • Foto de Pedro Martinelli 1970
1º de Maio • Foto de Pedro Martinelli 1970 - Publicação autorizada pelo autor.

Era eu um garoto pequeno o suficiente para não ser deixado sozinho em casa, e por isso levado para todo o lado pela mão de minha mãe. Acompanhava-a semanalmente às aulas de piano, na casa de sua professora, Dona Albina. A memória não é precisa, e os detalhes não são claros. Mas lembro que, na falta de crianças por perto ou brinquedos, me distraia observando coisas da casa. E havia uma foto, num porta-retratos, que me detinha, num misto de curiosidade e incompreensão. “É do meu filho, ele ganhou um prêmio com ela”. Dizia a professora transbordando de orgulho. E com essa informação, mais ainda me hipnotizava diante da imagem.

Guardei isso em algum canto da minha cabeça quando minha mãe abandonou as aulas de piano. Hoje, aos 42 anos, recente e “quase” tardiamente fisgado pela paixão fotográfica numa atração especial e um pouco frustrada pelo fotojornalismo, busco conhecer tudo o que foi produzido de relevante pelos grandes do segmento. Mas foi no último domingo, folheando o exemplar número 8 da coleção da Folha de São Paulo, “Grandes Fotógrafos”, que fechei um elo fundamental que pode fazer parte das raízes deste fascínio. A imagem viajou do porta-retratos da Dona Albina para as páginas de uma seleção de grandes gênios. A foto 1º de Maio, de Pedro Martinelli.

Conhecia algumas das obras deste importante nome da nossa fotografia e sabia sobre suas incursões amazônicas junto aos irmãos Villas Boas, mas ainda não tinha me reencontrado com esta foto para traçar o vínculo com o filho da professora de piano em Santo André. Jamais poderia imaginar que uma trajetória profissional de dar inveja a qualquer um que, como eu, tenha fascínio pelo registro da história e pela documentação antropológica através da fotografia poderia ter sido testemunhada por mim, dali, da casa de sua mãe, olhando uma ampliação presenteada das mãos do autor a ela.

Achei isso por demais pitoresco, e claro, de uma dose sentimental muito pessoal. Principalmente por envolver “mães” e filhos, infância e etc. Mas mais interessante ainda foi observar o fantástico trabalho dele com uma atenção redobrada e ver o quanto é algo análogo ao que sempre quis fazer como fotógrafo. Parei um bom instante para pensar o quanto aquela foto do porta-retratos ao lado do piano teria me influenciado, mais de trinta anos depois.

Então fica aqui a dica para uma aula de fotografia, jornalismo e talento  neste blog do Pedro Martinelli. Visitem!

 

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